Especialistas do mercado financeiro preveem que a taxa Selic pode subir para até 12,75% em 2027 e o crescimento do PIB ficar entre 1% e 1,2% se o governo não anunciar um plano fiscal convincente. Um estímulo de gastos públicos pode ser neutralizado em até 50% pela reação de juros e câmbio.
Especialistas do mercado financeiro alertam que a falta de um ajuste fiscal pode levar a juros mais altos e crescimento mais fraco no Brasil. Em uma simulação, um estímulo de 0,8 ponto percentual no crescimento poderia perder de 0,2 a 0,4 ponto devido à reação adversa dos juros e do dólar, segundo Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest.
Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirma que o principal risco para 2027 é a taxa Selic cair sem que os juros de longo prazo acompanhem. Sem uma sinalização consistente de ajuste fiscal, a Selic pode encerrar o ano entre 12,25% e 12,75%, e o PIB crescer entre 1% e 1,2%. Ele calcula que reverter o déficit primário projetado exigiria cerca de R$ 102 bilhões, e alcançar superávit de 0,5% do PIB elevaria o esforço para R$ 174 bilhões. Uma expansão fiscal de 1% do PIB teria seu efeito reduzido em até 50% devido ao aumento de juros e câmbio.
- Mercado prevê Selic entre 12,25% e 12,75% em 2027 sem ajuste fiscal.
- PIB deve crescer entre 1% e 1,2%, abaixo da estimativa anterior de 1,31%.
- Esforço fiscal para equilibrar contas é de cerca de R$ 102 bilhões.
- Estímulo de gastos de R$ 145 bilhões pode ser neutralizado em até 50% pela alta de juros e dólar.
- Especialistas pedem superávit primário de 1% a 2% do PIB para garantir queda de juros.
Previsões para juros e crescimento
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, considera que o Boletim Focus desta semana está defasado, pois foi elaborado antes das eleições. Com a reeleição de Lula, ele projeta Selic entre 12,5% e 13% e crescimento próximo de 1% para 2027, se não houver uma sinalização fiscal convincente. Para sustentar a queda dos juros, defende um superávit primário de pelo menos 1% do PIB, cerca de R$ 150 bilhões.
Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, diz que o Focus ainda não reflete o resultado eleitoral. Se o governo não anunciar medidas fiscais críveis, os investidores exigirão prêmios de risco maiores, pressionando a curva de juros e encarecendo o financiamento. Ele estima superávits primários de 1,5% a 2% do PIB para estabilizar a dívida. Uma estratégia de crescimento baseada em gastos públicos sem contrapartida teria efeito limitado e transitório.
Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, reforça que o Brasil tem um desafio de produtividade que só gastos não resolvem. Com expansão fiscal sem medidas estruturais, o PIB pode ficar entre 1% e 1,2%, com Selic entre 12,25% e 12,75%. Transformar o déficit primário de 0,7% do PIB em equilíbrio exigiria melhora de aproximadamente R$ 102 bilhões. Um estímulo de R$ 145 bilhões (1% do PIB) poderia perder entre 0,2 e 0,4 ponto de crescimento devido à reação do mercado.
Impactos no crédito e investimentos
Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, foca no canal do crédito. Ele afirma que a combinação de gastos maiores e pressão cambial pode elevar os juros esperados para 12,25%12,75% e reduzir o crescimento para 1%1,2% em cenário de estresse. Para sustentar a queda de juros até 2028, seria necessário enfrentar o déficit primário de 0,7% do PIB (cerca de R$ 102 bilhões) e construir uma trajetória confiável para a dívida. Ele destaca que em uma expansão de 1% do PIB (R$ 145 bilhões), entre 25% e 50% do impulso pode ser neutralizado por juros e dólar mais altos, afetando investimentos e crédito imobiliário, rural e empresarial.
Leticia Moschioni, sócia da Finscale, questiona quanto do gasto público vira produção e renda. Ela diz que em um cenário de estímulo sem compensação, as projeções podem piorar, mas destaca ganhos de produtividade e eficiência. Por exemplo, uma empresa que movimenta R$ 100 milhões em recebíveis e reduz seu custo financeiro em 0,5 ponto percentual economiza R$ 500 mil por ano. Isso mostra que eficiência em pagamentos e crédito pode gerar atividade sem depender de estímulos fiscais.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, alerta que o dólar pode mudar a leitura do Focus. Uma aplicação com Selic de 11,75% ao ano, combinada com desvalorização cambial de 10%, renderia apenas 1,6% em dólar, antes de custos e impostos. Se a percepção fiscal levar os juros para 12,25%12,75% e reduzir o crescimento para 1%1,2%, a cotação cambial e a taxa de desconto das ações ganham importância. Ele sugere diversificação por moedas, geografias e ETFs internacionais para reduzir riscos.


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